O tesouro epistolar de Clarice Lispector
Um lote de 47 cartas inéditas de Clarice Lispector foi encontrado no arquivo pessoal de um amigo próximo da escritora, o crítico literário Antonio Candido. As correspondências, datadas entre 1944 e 1975, abrangem desde sua juventude no Rio de Janeiro até os anos finais de sua vida. Os documentos foram descobertos por acaso durante a digitalização do acervo de Candido, que morreu em 2017.
Diálogos com Guimarães Rosa e outros gigantes
Em uma das cartas mais impactantes, Clarice discute a obra de João Guimarães Rosa com entusiasmo raro. Ela escreve: “Sinto que Rosa escreve como se cada palavra fosse a última, e por isso cada frase é uma eternidade.” Em outra, ela menciona a influência de Virginia Woolf e James Joyce, revelando um processo criativo intenso: “Às vezes, sinto que escrevo para me livrar de uma angústia que só a página em branco entende.”
Contexto político e pessoal
As cartas também abordam a ditadura militar brasileira. Clarice expressa sua preocupação com a liberdade de expressão e comenta sobre a censura: “Aqui, as palavras estão sendo trancadas em gavetas. Mas a literatura encontra frestas.” Em cartas mais íntimas, ela fala sobre seus filhos, Pedro e Paulo, e sobre suas dificuldades financeiras e de saúde. “Escrever é o único ato que me mantém viva”, confessa.
Impacto na biografia e na crítica
Para a biógrafa Nádia Gotlib, as cartas “reescrevem a história da autora, mostrando uma Clarice mais engajada e vulnerável”. O acervo será publicado em livro pela Editora Rocco em 2027. A descoberta promete reacender debates sobre a relação entre vida e obra em uma das maiores escritoras do século XX.
