Uma descoberta inédita no acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro promete reescrever a história de uma das maiores escritoras brasileiras. Mais de cem documentos, entre cartas pessoais, fotografias nunca publicadas e manuscritos de poemas desconhecidos, foram encontrados em uma mala que pertenceu a Clarice Lispector, escondida por décadas na casa de uma amiga em São Paulo.
Os materiais, datados entre 1940 e 1977, revelam momentos íntimos da autora de A Hora da Estrela. Em uma carta de 1955, endereçada ao amigo e crítico literário Antonio Candido, Clarice desabafa sobre as dificuldades financeiras após a separação do marido, o diplomata Maury Gurgel Valente. “Meu caro Antonio, a vida é uma sucessão de naufrágios que só a escrita pode manter à tona”, escreve ela.
As fotografias mostram uma Clarice sorridente, em viagens por Berna e Washington, onde viveu durante o casamento. Uma imagem em preto e branco a registra com os filhos, Pedro e Paulo, em um piquenique em Genebra, em 1952. “Ela era uma mãe presente e carinhosa, contrariando a imagem de escritora reclusa e misteriosa”, afirma a historiadora Lilian Santos, que liderou a curadoria do achado.
Entre os manuscritos, destaca-se um poema inédito de 1964, intitulado “O Ventre da Noite”, que traz versos sobre solidão e desejo. Especialistas já comparam a obra a alguns dos melhores momentos de Um Sopro de Vida, publicado postumamente. A descoberta deverá ser tema de uma exposição virtual a partir de agosto, organizada pelo Itaú Cultural.
A notícia já gera expectativa no meio acadêmico e literário. A biógrafa Nádia Gotlib, autora de “Clarice: Uma Vida que se Conta”, afirma que os novos documentos permitirão “uma revisão profunda da personalidade e da obra da autora”. Para os fãs, é a chance de conhecer a mulher por trás do mito.
