Uma nova biografia de Clarice Lispector, intitulada Clarice: A Vida que Ninguém Viu, promete revolucionar o entendimento sobre a escritora brasileira. Lançada nesta semana pela editora Rocco, a obra do pesquisador argentino Juan Pablo Roldán traz à tona mais de 50 cartas inéditas trocadas entre Clarice e amigos próximos, como o poeta Carlos Drummond de Andrade e a escritora Lygia Fagundes Telles.
Segundo Roldán, as correspondências revelam uma Clarice mais vulnerável e contraditória do que a imagem pública de intelectual fria e distante. “Ela escrevia sobre suas crises existenciais, medos e até mesmo sobre o desejo de abandonar a literatura”, afirma o biógrafo. Uma das cartas mais impactantes, datada de 1967, mostra Clarice confessando a Drummond que se sentia “um fracasso como mãe e como esposa”.
Além das cartas, a biografia analisa passagens obscuras da vida da autora, como sua curta passagem pelo serviço diplomático e sua relação conturbada com o marido Maury Gurgel Valente, de quem se separou nos anos 1950. O livro também especula sobre a causa de sua morte prematura, em 1977, sugerindo que Clarice teria previsto o próprio fim em escritos pessoais.
A obra já está gerando polêmica entre especialistas. A professora de literatura da USP Nádia Battella Gotlib, que escreveu uma biografia de Clarice em 1995, critica a abordagem sensacionalista. “Não se deve reduzir Clarice a fofocas. Seu valor está na obra, não na vida pessoal”, disse. Já o autor defende que “a vida e a obra são indissociáveis”.
A biografia chega às livrarias em meio ao crescente interesse por escritoras mulheres no Brasil. Nos últimos anos, obras como Seminário dos Ratos e Perto do Coração Selvagem ganharam novas edições e leitores jovens.
